Se você passou pelo feriado de Corpus Christi em Pernambuco, provavelmente ouviu alguém reclamar do trânsito na BR-232. Ou viu o meme: foto de uma fila de carros com a legenda "visita à Feira de Caruaru, 2026". Pois é — a feira livre mais famosa do Nordeste bateu recorde de visitantes neste feriado prolongado, e o caminho até lá virou parte da experiência (querendo ou não).

Segundo a Associação dos Lojistas da Feira de Caruaru (Alfc), o movimento superou em 18% o mesmo período do ano passado. Foram estimados mais de 400 mil visitantes entre quinta e domingo — um número que faz sentido quando você vê a quantidade de placas de carro de Alagoas, Paraíba, Bahia e até do Ceará estacionadas nos arredores da Feira da Sulanca.

O que levou tanta gente

Comerciantes apontam três fatores: feriado prolongado, promoções agressivas de lojistas que queriam compensar um primeiro semestre difícil, e o chamado "efeito Caruaru" — a combinação de preço baixo, variedade absurda e a experiência de passear entre corredores que parecem não ter fim.

Seu Antônio, que vende sandálias de couro há 35 anos no mesmo box, disse que vendeu em dois dias o que normalmente vende em uma semana. "O povo veio com sede de comprar. Acho que ficaram em casa demais nos últimos meses e agora querem gastar", avalia, sorrindo atrás do balcão empilhado de caixas.

Caruaru não é só feira — é destino. E quando o destino lota, a estrada paga o pato.

O lado B: trânsito e infraestrutura

Nem tudo foram vendas e sorrisos. O trânsito na BR-232, principal via de acesso, foi caótico nos quatro dias de feriado. Motoristas relataram filas de até três horas entre Gravatá e Caruaru. O Detran-PE registrou 14 acidentes na rodovia no período — nenhum com vítimas fatais, felizmente.

A Polícia Rodoviária Federal reforçou o policiamento, mas admitiu que a capacidade da via não acompanha o crescimento do fluxo turístico. "A BR-232 foi dimensionada para outro tempo. Hoje, Caruaru atrai gente de todo o Nordeste — e a estrada não cresceu junto", disse um agente que preferiu não se identificar.

Nas redes sociais, os memes multiplicaram. Um dos mais compartilhados mostrava um GPS com a rota "Recife → Caruaru" e o tempo estimado: "4 horas e 37 minutos (ou mais)". Outro, uma montagem do boneco de Caruaru sentado num congestionamento, com a frase: "Até o homem da carne de sol tá esperando."

Feira de todos os gostos

Para quem conseguiu chegar, a experiência compensou — pelo menos segundo os visitantes ouvidos pelo Lampião Agora. A Feira de Caruaru é um universo: tem a zona das roupas, a dos artesanatos, a dos animais, a da comida. Tem o forró de rua, o vendedor que grita oferta, a pechincha que é quase esporte.

Juliana, 28, veio de Maceió com a família. "Fizemos lista do que comprar, mas esquecemos tudo quando chegamos. Compramos sandália, rede, boneca de pano, queijo, rapadura e uma galinha de cerâmica que ninguém precisava", conta, rindo. Ela diz que voltaria — mas de ônibus. "De carro, nunca mais. Pelo menos não no feriado."

O que vem por aí

Com o São João chegando, os lojistas já preparam estoque extra. A expectativa é de novo pico de visitantes em junho. A prefeitura de Caruaru anunciou um plano de mobilidade com ônibus extras e estacionamentos alternativos, mas moradores são céticos. "Todo ano prometem e todo ano a gente fica preso no trânsito", disse um taxista que trabalha na região há 15 anos.

Uma coisa é certa: Caruaru continua sendo o termômetro do consumo no agreste. Quando a feira lota, o interior está vivo — mesmo que a estrada para chegar lá pareça um teste de paciência.