Os reservatórios que abastecem o agreste pernambucano estão operando com capacidade abaixo de 20% — o pior índice registrado na região em pelo menos dez anos. Os dados, divulgados nesta quinta-feira (12) pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), confirmam o que moradores e agricultores já sentiam no corpo: a seca deste ano não é brincadeira.
Em Serra Talhada, no sertão do Pajeú, o reservatório Mundaú está com apenas 14% da capacidade. Em Garanhuns, na zona da mata sul, a situação é menos crítica, mas ainda preocupante: 32%. O problema é que Garanhuns abastece cidades do agreste por meio de adutoras — e quando a fonte aperta, a fila de quem espera água só cresce.
Safra perdida e conta no vermelho
João Evaristo, 54 anos, planta milho e feijão em uma propriedade de 12 hectares entre Afogados da Ingazeira e Sertânia. Ele perdeu cerca de 60% da safra de inverno por falta de chuva. "Plantei confiando na previsão do vizinho, que disse que ia chover em abril. Abril passou, maio passou, e o milho ficou no chão", conta, sentado na varanda de casa, com o chapéu de couro pendurado na cadeira.
A história de João se repete em dezenas de propriedades da região. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape) estima que mais de 15 mil agricultores familiares foram afetados diretamente pela estiagem neste semestre. O prejuízo financeiro ainda está sendo calculado, mas dirigentes sindicais falam em "centenas de milhões de reais" em perdas para a economia local.
Quando o reservatório baixa, quem paga a conta é sempre o mesmo: o pequeno produtor e a família que mora longe da adutora.
Prefeituras em alerta
Pelo menos oito prefeituras do agreste pernambucano já declararam situação de emergência por seca. O decreto, além de abrir caminho para recursos federais, permite medidas como rodízio no abastecimento e restrição ao uso de água em atividades não essenciais.
Em Caruaru, a terceira maior cidade do estado, a prefeitura anunciou um plano de contingência que inclui horários alternados de abastecimento em bairros periféricos. A medida deve começar a valer na próxima semana, caso não chova — e a previsão do tempo, convenhamos, não anima ninguém.
"Não estamos falando de racionamento generalizado ainda, mas estamos nos preparando para o pior cenário", disse o secretário municipal de Infraestrutura de Caruaru, em entrevista coletiva na manhã desta quinta. A frase, diga-se, soou mais como aviso do que como tranquilização.
O que diz a ciência
Pesquisadores do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) apontam que o fenômeno é resultado de uma combinação de El Niño residual, redução das chuvas de março a maio e aumento da temperatura média na região. "O semiárido está ficando mais semi e menos árido no sentido de chuva — mas mais quente, o que acelera a evaporação dos reservatórios", explica a climatologista Dra. Helena Moura.
Ela ressalta que projetos de dessalinização e cisternas — como os do Programa Água para Todos — ajudam, mas não resolvem a escala do problema. "Precisamos de política de longo prazo, não só carro-pipa quando a situação estoura", afirma.
E agora?
O governo estadual prometeu liberar R$ 30 milhões em crédito emergencial para agricultores afetados. O prazo para inscrição começa na segunda-feira. Paralelamente, a Compesa intensificou a operação de carros-pipa em comunidades rurais que ficam fora da rede de adutoras.
Na feira de Serra Talhada, o assunto é unânime. "Água virou ouro", disse dona Maria, que vende queijo coalho há 22 anos no mesmo ponto. "Meu poço quase secou. Se não chover até julho, vou ter que fechar a banca." A frase dela resume o clima — no sentido literal e figurado — de um sertão que, mais uma vez, aprende a viver com menos.